Transformações
Somos o que fazemos com o que fazem da gente. Somos seres históricos, e a história é constituída por fatos: nasci em um bairro de periferia. Cresci com 3 irmãos mais velhos em uma casa que meu pai, aos poucos, foi construindo. Ouvi tanto a mesma história que hoje parece que ela é uma memória implantada em minha mente. Tenho lembranças de uma casa de primeiro andar, cujo térreo era a única parte da casa habitada. Antes de me entender como gente, a parte "útil" da casa era o primeiro andar, pois no térreo não havia piso, era feito de barro, e quando chovia, não podíamos tocar as paredes por correr o risco de levar um choque. Lembra um pouco a música de Vinicius de Moraes " A casa" que diz "era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada".
A música, na verdade, era poema, cantado por Vinícius como cantiga de ninar para suas filhas. Lembro-me que, quando criança, corria pelo térreo da casa já construído pelo meu pai, e brincava no andar de cima que mais parecia uma segunda casa, abandonada. Eu passava a maior parte do tempo sozinha, nos anos 2002 e 2003. O bairro não é, até hoje, considerado tranquilo, então a minha liberdade se limitava àquela casa e à parte abandonada do primeiro andar. Eu brincava de explorar o passado, vasculhando o que havia naquela parte inabitada e me perguntando o por quê de ninguém usar mais aqueles cômodos. Ali era o meu tesouro. Descobri que eu e meus irmãos tínhamos muitos brinquedos com o quais, àquela época, já não brincávamos mais. O tempo e a "distância" nos fizeram esquecê-los. No dia da mudança, eu, com cerca de 9 anos de idade, perguntei ao meu pai, em tom de brincadeira, se não daria para levar a casa no caminhão de mudança.
É essa a lembrança mais antiga que eu tenho da primeira vez que transformei uma tristeza em graça. A partir dali, tudo mudou. Entendo, hoje, que minha curiosidade pelo passado, pelo caminho percorrido por meus pais até a minha chegada era uma tentativa de saber quem eu era e de onde eu vim para começar a minha jornada. Quando nos mudamos para o apartamento, não havia mais tesouros, não havia mais um passado abandonado que podia ser revisitado... nós deixamos o bairro perigoso e passamos a morar em um apartamento em um bairro tranquilo. Nesse bairro eu conheci um pouco da liberdade. Comecei a ir sozinha para a escola, visitar uma ou outra amiga em suas casas, pegar ônibus para enfrentar uma aventura escondida. Foi nessa época que comecei a sentir o peso da minha condição econômica. Não éramos miseráveis, tínhamos um pouco de luxo com limitações, mas conhecer o que eu não tinha e as dificuldades que enfrentaria para conquistá-los me fez ver o mundo de outra forma. Minha transformação havia iniciado, pois parei de investigar o passado e comecei a me preocupar com o futuro, para onde eu seguiria.
Ainda muito cedo, pelo contexto familiar, tive que amadurecer o mais rápido possível. Como não podíamos pagar por funcionárias, minha babá eram meus cursos de ginástica rítmica, balé, teoria musical e teclado. Eu estudava de manhã e à tarde eu frequentava esses espaços próximos ao trabalho de minha mãe, pois ela me buscava depois de seu expediente para irmos para casa. Quando ela demorava, eu a esperava em uma biblioteca. Por causa disso, fui introduzida à arte desde muito nova, embora, antes disso, meu desejo fosse o de ser escritora.
A arte foi o que me permitiu expressar o que eu sentia. Nunca fui boa com a oralidade, então eu escrevia. Em casa, ninguém falava sobre os sentimentos, então eu escutava música. Ao cantar um trecho de uma música em português, recebi uma chamada do meu pai que, muito provavelmente, não estava preparado para me ensinar sobre o amor e suas façanhas. Era mais fácil não falar sobre isso. Então passei a estudar inglês, porque eu podia falar e escrever sobre os sentimentos (até mesmo os mais sombrios) e ninguém iria entender. Meu mundo particular me salvou de implodir com tantos sentimentos incompreendidos. Eu permanecia em silêncio, e estava tudo bem.
Eu também gostava muito de desenhar. Desenhava famílias de todos os tipos. Aparentemente, o tema "família" me interessava muito. Acho que a gente começa a ficar obcecado por algo que gostaríamos de ter, mas não temos. Eu tinha uma família: pai e mãe e 3 irmãos, mas eu tinha uma imaginação muito fértil e idealizava a família que eu gostaria de ter. Talvez, idealizar um mundo para viver tenha criado em mim uma melancolia crônica.
Fernando Birri, nos diz que
"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isto: para que eu não deixe de caminhar"
Há quem desista da vida, se pensar que nunca alcançará tal objeto de desejo. Somos seres desejantes, o desejo nos move em busca de alcançá-lo. Como animar-se sabendo que nunca o alcançará? Birri me lembra que o desejo, mesmo sendo uma utopia, serve para que eu siga. Ainda não alcancei o que desejo para a minha vida, mas se eu olhar para trás, eu vejo o tanto que eu já caminhei em busca do que quero. No final das contas, a vida parece ser isto: a estrada que se faz ao caminhar. O caminho nos transforma e os desejos, às vezes, mudam de lugar.
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