O contato dos incomunicáveis na era da comunicação
Na iminência de sua partida, eu já havia me conformado que perderíamos o contato. Parece irônico que na era da comunicação e da informação, com as redes sociais que prometem aproximar os geograficamente distantes, nos encontrássemos em silêncio. Por vezes eu me revoltei com isso, mas não demonstrei porque é apenas o curso da vida. Forcei-me a lidar com isso como uma pessoa madura lidaria. Tentei convencê-lo de que estava tudo bem. Tentei mostrá-lo o lado bonito daquele tempo só nosso. Como eu o havia dito antes, as partidas são inevitáveis e aquele universo que criamos, que não correspondia ao tempo e ao espaço em que vivemos hoje, na nossa realidade, era tão maravilhoso que eu só tinha vontade de agradecer por ter sido capaz de vivenciá-lo com ele.
Sua existência me faz acreditar em magia. Em "before sunrise", trilogia de Richard Linklater, Celine, a protagonista, recita uma das falas que mais me atravessam nesse filme:
"Acredito que se há algum Deus, ele não estaria nem em você nem em mim, mas nesse espaço que existe entre nós. Se há algum tipo de magia no mundo, ela deve estar na tentativa de entender e compartilhar algo com alguém. Sei que é praticamente impossível conseguir, mas e daí? A resposta deve estar na tentativa."
Antes de partir, ele havia dito que queria manter a nossa amizade. Mas nós éramos "nós" apenas naquele pequeno universo deslocado que criamos onde ninguém nos reconhecia. Era naquele universo que a mágica acontecia, que nos compreendíamos, compartilhávamos e que éramos livres, pelo menos nas ideias. Tentei me conformar que logo mais nos tornaríamos estranhos, como éramos antes de ele encontrar abrigo em meus olhos e eu em suas palavras.
Uma das coisas que nos difere, porém, é o tamanho de sua fé. Falo da fé desinstitucionalizada, aquele sentimento de entrega, de acreditar que "o impossível é só uma questão de opinião". Às vezes, a gente quer tanto algo que passa a crer que, de alguma forma, isso se realizará, basta confiar. Talvez eu possa chamar isso de esperança, porque, ao contrário dele, continuo sem a fé cristã, mas, por causa dele eu confio na poesia e, acima de tudo, que o amor genuíno existe.
Eu confio na poesia porque é através dela que mantemos contato. É inevitável pensar em sua existência quando penso em adicionar uns versos em minha prosa. Ele é a própria poesia materializada em forma de gente. Confio no amor genuíno porque só ele faria permanecer a vontade de manter vivo aquele nosso universo impossível e lembrar dele como um momento de conforto em meio ao caos. E é por causa dele que nos mantemos perto, mesmo longe.
Eyes never lie
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